Há algum tempo a internet passou a ser pra mim um, estorvo, vamos disser assim. Tenho mania de em muitas vezes me sentir pequena, menor do que já sou. Vendo toda aquela alegria das pessoas, toda aquela beleza, aquela vontade de viver e ser feliz eternamente. Sei, porém, que em muitas vezes quem é feliz demais, acaba forçando uma felicidade. E a felicidade, o que seria? Hoje posso dizer com clara certeza: felicidade é o contentamento consigo mesmo, é aceitar-se, independente de onde você esteja e com quem você esteja, se faz chuva ou sol. É levantar a poeira mesmo quando tudo em volta é lama. É saber dar um basta no que não nos faz bem, e passar a usar isso a nosso favor. Agora eu consigo flexionar muito melhor as ferramentas que tenho em mãos: meus amigos, minha família, meus conhecidos, e também aqueles que não curto muito - pq a gente precisa de tudo isso pra sempre crescer.
Quanto minha infelicidade com a internet, bem, o jogo virou também. Tem um blog que curto muito acessar, que faz parte do Click RBS, é o blog Radaika e Fetter em vida de casal, onde eles contam várias coisas, desde família até profissão - pq eles trabalham juntos. Fico feliz em saber que o amor não está perdido. O deles, me ensina muita coisa. Enfim, ontem cliquei lá para ver as novidades e me surpreendi com um texto, escrito pelo Silmara Franco, do blog Fio da Meada, que é fantástico! Vou postar aqui, pois sei que se salvar só no pc ou pen drive, vou perder. Isso sim é o que devemos procurar fazer quando o tédio bater!
Brincadeira séria
Faz de conta: você acordou, ligou para o salão e marcou um horário. Na hora do almoço, foi lá e pediu: Corta bem curto. O cabeleireiro não acreditou no que ouvia. Afinal, seus quase cinquenta centímetros de cabelo sempre foram, na sua cabeça (literalmente), uma espécie de atestado da sua feminilidade. Mas agora eles teriam de ser curtos. Para que suas ideias ficassem longas. Ele colocou a mão um pouco abaixo do seu ombro: Mais ou menos aqui? Você segurou a mão dele, levou-a na altura da sua orelha, e disse: Tosa.
Depois você passou naquela loja onde tem uns vestidos moderninhos e coloridos. Você entrou e pediu aquele cor de laranja com borboletas, muito mais curto do que os que você costuma usar. Aproveitou e pediu a sapatilha da vitrine. Arrancou o seu terninho bege, sua camisa branca e seu escarpim marrom. Deixou tudo por lá mesmo, no provador. E quando a vendedora perguntou o que fazer com aquilo, você disse: Queima.
Quando você retornou ao trabalho, uma hora depois do horário de costume, com aquele vestidinho e com os cabelos daquele jeito, a roda em torno de você foi se formando. Uns, animadíssimos. Outros, nem tanto. Alguns reprovaram. Como as coisas já não andavam muito bem por ali, sua chefe lhe chamou no final do dia para conversar, e avisou que as coisas não poderiam continuar daquele jeito, ou ela teria que substituir você. E você disse: Substitui.
Saindo de lá deu vontade de jantar naquele bistrô aonde você acha que só deveria ir no dia do seu aniversário ou outra data importante. Você mal encostou seu carro e já veio o dono da rua, dizendo que eram dez pratas para parar ali. E, como você não deu bola, o homem começou aquela conversinha surrada dizendo, na entrelinha da entrelinha, que um eventual não-pagamento antecipado incorreria em riscos indesejáveis na pintura do seu bólido. Você pegou o celular, digitou três números, mostrou o visor para o homem e, já com o dedo na tecla “ligar”, disse: Risca.
Faz de conta que você chegou em casa e sua filha de dezessete anos estava na sala com o namorado. Você teve que contar de novo a história daquele vestido e daquele cabelo e, como chovia, sua filha sondou se o rapaz poderia dormir ali. E, enquanto jogava no lixo aquela agendinha que você só usava no trabalho, você disse: Pode.
Quando se deitou para dormir, aquele anjo que costuma vir conversar com você antes do sono se empoleirou na cabeceira da sua cama. Elogiou o cabelo, o vestido, a decisão no trabalho, o presente de não-aniversário, o chega-pra-lá no dono da rua, a atitude com a filha. Só por curiosidade, perguntou que bicho havia mordido você. E você, se ajeitando no travesseiro e já desligando o abajur, disse: Nenhum.
No dia seguinte, vendo que eram dez da manhã e você ainda não havia se levantado, sua filha entrou no quarto, vocês conversaram e no final ela perguntou como é que vocês viveriam dali para frente. Com certa ironia, ela arriscou dizer que com as bolsas e os badulaques que você produzia e vendia nos finais de semana é que não seria. E você disse: Sim.
À tarde, você procurou o dono daquele galpão que você havia visto para alugar, perfeito para uma oficina, e fez uma oferta. O homem coçou a cabeça, pediu um pouquinho mais, e você disse: Fechado.
À noitinha, você foi até a casa dos seus avós, assim, de surpresa. E, de surpresa, você os beijou. E quando eles perguntaram o que era aquilo, você disse: Amor.
Faz de conta que foi assim. Faz de conta que foi desse jeito que você virou a mesa. Que resolveu não perder mais tempo, fazer o que gosta e ser do jeito que você, só você, acha que fica mais bonita.
Faz de conta que você morreu. E que alguém lhe deu a oportunidade de voltar para um terceiro tempo.
Então. Agora vai lá e faz tudo de verdade.
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Fantástico, né?
Então, vamos virar a mesa também?
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